A ERA DO POPULISMO

Populismo. Esta é indubitavelmente a palavra que se encontra na ordem do dia e quiçá a mais proferida pelas classes política e jornalista na Europa. Sempre que lemos nos jornais ou ouvimos na tv ou rádio, o populismo é revestido de uma carga imensamente negativa. Tal prática discursiva tem por objectivo descredibilizar determinados movimentos ou personalidades e simultaneamente incutir receio e rechaço nos leitores ou espectadores.

Mas o que é e representa realmente este populismo?

Numa descrição simplista o populismo pode ser entendido como um movimento de transformação política que concebe o povo como o principal actor no terreno da acção política, movimento esse que se afirma por oposição ao poder instituído – seja ele político, económico, financeiro, social ou mediático – e que, por norma mas não necessariamente, projecta na figura de um dirigente carismático a antítese daquilo que a classe dirigente representa.

Não sendo fácil enquadrar ideologicamente o populismo à esquerda ou à direita, historicamente o populismo manifestou – se ora como fenómeno de cariz direitista, ora como derivação esquerdista, mormente na América do Sul, continente onde os movimentos populistas geraram uma dinâmica de integração das massas populares na vida política.

Ora, qual o motivo de tão ampla campanha negra anti-populista por parte das auto-designadas elites políticas e órgãos de comunicação?

Para se compreender essa animosidade temos de recuar um pouco na história. Reza a lenda que aquando do desmoronar da utopia soviética perante a realidade, o liberalismo afigurou-se como o vencedor da longa guerra fria e assumiu-se como sendo o único caminho para uma humanidade cujo derradeiro fito seria o progresso económico incessante. Colocado desta forma somos levados a crer que o liberalismo é uma concepção do mundo de direita por oposição às ideias de esquerda. Tal não é verdade porquanto o liberalismo é ideológica e historicamente uma emanação do pensamento de esquerda, que conheceu diferentes fases na sua evolução e conforma distintas correntes que conduziram ao surgimento de um liberalismo de feição progressista e a um liberalismo de aparência conservadora, mas sempre concordantes nos princípios básicos da constituição do regime político e no enfoque valorativo da sua mundovisão, a economia.

No caso nacional, no âmbito parlamentar é lícito afirmar que a direita é praticamente inexistente no hemiciclo, uma vez que entre os partidos representados nenhum se assume de direita e quando tal designação é mencionada parte sempre de elementos da esquerda radical para categorizarem a oposição a elementos liberais moderados ou conservadores. Assim, não é por acaso que nos Estados Unidos da Améri ca os esquerdistas são designados liberais, tal como não é de admirar as coincidências nos discursos alarmistas referentes ao “surgimento do populismo” quando se escuta a dirigente do Bloco de Esquerda ou se lê a dirigente do CDS[1].

Chegados aqui e perante esta constatação, mais facilmente se compreende a narrativa que denuncia o populismo entre a classe política lusa e, por extensão, europeia, uma classe dirigente que afirma ser o povo o centro da actividade política mas que olha para o mesmo desdenhosamente desde de cima, considerando-o incapaz de assumir a função decisória e, por conseguinte, necessitar do amparo de entidades representativas. Ainda que indigno de menção, recordo a esse propósito as declarações do já falecido Almeida Santos a um entretanto extinto programa da RTP2, no qual esse político alertava para o perigo da democracia representativa resvalar para a democracia directa.

Para a classe instalada no poder, o povo ainda não alcançou a maioridade intelectual necessária para decidir e governar sem necessitar de representantes. Classe essa que, não obstante a comprovada incompetência governativa marcada por despachos políticos desastrosos de consequências terríveis – como foram as intervenções militares no Iraque, Líbia ou Síria – ou tomadas de decisões absolutamente anti-democráticas – como o facto das políticas migratórias na Europa nunca terem sido sujeitas a consulta popular – insiste em perenizar-se no poder e usa os meios de informação como mecanismos de propaganda para esse mesmo fim.

Mas no que consiste realmente o populismo?

Como anteriormente vimos, o populismo não se situa necessariamente em nenhum dos polos ideológicos. Parafraseando o filósofo Alain de Benoist “o (movimento) populista, é um estilo, uma nova forma de articular numa perspectiva ‘contra-hegemónica’ uma série de exigências sociais e políticas que a classe dominante não está a responder… O populismo é uma exigência que parte do povo para forçar os políticos a fazer política em detrimento de uma actividade pública que se limita à administração das coisas.[2].

O populismo é, pois, uma resposta natural dos povos frente a um poder instalado, usualmente oligárquico, e tem por principal objectivo reforçar a ligação das massas populares com as instituições, colocando estas ao serviço do bem-estar económico e social do povo, actualmente relegado para plano secundário nas mais diversas questões determinantes para as suas vidas. Em última instância o populismo é a expressão mais aproximada da soberania popular face à soberania das instituições que na maior parte dos casos estão divorciadas com as realidades dos governados.

O populismo emergente na Europa manifesta-se contrário a uma construção europeia alheia às inquietações e necessidades das pessoas, oposto à Europa da alta-finança, adverso ao admirável mundo novo da Goldman Sachs, antagónico com a Europa dos mercados e da bolsa de valores, revoltado com uma Europa que se vê submetida a um autêntico processo de substituição populacional através da entrada e acolhimento em solo europeu de milhões de imigrantes, esse exército de reserva do capital.

O populismo ao qual a cada dia que passa mais e mais europeus aderem é uma reacção vitalista daqueles que se sentem enganados por promessas de felicidade não cumpridas, fartos do sumo sensabor das maçãs padronizadas decididas pelos burocratas de Bruxelas. Este populismo é um grito de revolta de todos quantos se vêm na iminência de perderem a sua identidade, esmagada pelo rolo compressor da globalização, depois de já terem perdido a sua indústria, a sua agricultura e a sua pesca.

Este é também um populismo que brota da indignação contra a cultura da irresponsabilidade, daqueles que querem ser pais e não têm ajudas sociais, mas vêm os seus impostos serem canalizados na gratuitidade da interrupção da gravidez de quem optou por não usar métodos contraceptivos.

Este é o populismo daqueles que compreendem o absurdo do igualitarismo forçado e acreditam nas virtudes da meritocracia. O populismo das pessoas que viram o poder confiscado por políticos ao serviço de banqueiros. O populismo que opõe às emoções teledirigidas os factos, o populismo que frente às utopias travestidas de humanismo, lança a âncora na vida real.

Na esteira da eleição presidencial de Donald J. Trump, saibamos também nós, europeus, seguir o exemplo do povo norte-americano e erigir uma frente comum capaz de catalisar o enorme descontentamento de milhões de pessoas ávidas de recuperar as suas vidas.
O mote foi lançado, agora basta querermos.

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[1] A este propósito leia-se o artigo de Assunção Cristas no Jornal Público de 22 de Novembro de 2016, “Ao radicalismo dos populismos responder com o radicalismo do amor”

[2] https://fr.sputniknews.com/opinion/201701261029788089-france-mouvements-populistes-ancienne-classe-politique/

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