Sempre na vanguarda da informação (episódio I)

Por João Vaz
Licenciado em Filosofia

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Sempre na vanguarda da informação apresentamos hoje a entrevista com o ministro Ding Dong, responsável britânico pela segurança, isto a propósito do sucedido em Londres.

-Sr. Ministro, um primeiro comentário a este atentado.

-Ora bem, em primeiro lugar há que ter cuidado com as palavras. A expressão atentado parece-me muito forte e pode dar azo a interpretações erradas. Como sabemos que não se trata de insurgência, de resistência? A nossa BBC, com o seu selo de qualidade, recusa-se a usar o termo “terrorista” pois o terrorista de uns é o combatente da liberdade de outros. Além disso, como nos ensinou Jacques Derrida e a gramatologia…

-Certamente, sr. Ministro. Mas diga-nos, qual vai ser a reacção a estes acontecimentos?

-Qual vai ser? Já foi! Já reagimos e de forma exemplar! Deixe-me dizer-lhe que os nossos aliados franceses desligaram a luz da Torre Eiffel em sinal de solidariedade, enviando assim uma mensagem muito forte aos insurgentes. Foram colocadas flores no locar do sucedido. No nosso caso, em reunião, os ministros discutiram medidas semelhantes. Houve mesmo uma proposta de desligar o Big Bang e…

-Peço desculpa por interromper, sr. Ministro, mas refere-se ao Big Ben, certamente.

-Ou isso, é igual. Mas concordou-se que tal seria excessivo. Optou-se por medidas mais concretas mas, ainda assim, firmes. Vamos pedir aos senhores do Dito Estado Dito Islâmico, como muito bem diz um grande comentador do vosso país, se não se importam de parar com estas acções. Mas temos de ter cuidado com as reacções, é necessário não cedermos à xenofobia e à islamofobia. Veja, tivemos um ministro, não vou dizer qual, a sugerir que usássemos uma bandeira britânica na lapela. Imagine-se! Que sinal daríamos? Que somos xenófobos e de extrema-direita! Não, temos de ter muita cautela porque não queremos magoar os nossos irmãos islâmicos nem fazer o jogo dos racistas.

-E se eles não pararem?

-Aí talvez tenhamos mesmo de avançar para outro tipo de medidas como sejam o diálogo ou mesmo a conversa. Em último caso alguém a tocar piano na rua.

-Dr. Ding Dong, estes acontecimentos arriscam-se a criar, diz-se, uma vaga de islamofobia. O que diz a isso?

-Ora bem, digo que estes eventos nada têm a ver com o islão, que é uma religião de paz. E podem desistir aqueles que pensam levar-nos a um conflito de civilizações. Isso não existe. Para mostrar que nada nos desviará do nosso caminho vamos continuar a receber refugiados, apesar deste evento ter sido da responsabilidade de um cidadão britânico, tão britânico como eu ou o famoso detective, aquele, o que se drogava.

-O Sherlock Holmes?

-Sim, esse.

-Quer dizer que podemos contar com mais refugiados? Serão sírios?

-Sim, estamos a contar com mais 300.000, a maioria sírios. Mais concretamente 5 pessoas de uma família de Damasco. Os outros 299.995 serão de Marrocos, Tunísia, Argélia e outras províncias sírias muito afectadas pela guerra.

-Sr. Ministro, na sua opinião, qual a causa destes actos?

-Ora bem, no meu ver o grande problema é a discriminação e o racismo. Estes jovens são discriminados, a sociedade não os apoia e eles radicalizam-se. Interpretam erradamente o Alcorão, cuja mensagem é de paz. Aliás, o governo está a estudar a possibilidade de criar uma comissão de análise das edições do Alcorão que circulam na Grã-Bretanha. É estranho existirem tantas interpretações erradas, pelo que temos de analisar a qualidade da edição e…

-Peço desculpa por interromper, dr. Ding Dong, mas neste caso o sujeito em causa tinha mais de 50 anos, não era propriamente um jovem…

-E dá-me razão. Vê como está a dar-me razão? Muito aguentou ele, o infeliz, tanto tempo discriminado. Chegou ao seu limite, coitado. Temos de saber apoiar esta gente. Eles escolhem o nosso país para viver e não os podemos desiludir. Em última análise há que debater sobre a possibilidade de a Grã-Bretanha adoptar a lei islâmica. Se aqueles que acolhemos se sentem melhor assim, porque não? Temos de saber acolher e bem receber. Além disso, a lei islâmica é uma lei. Por que razão havemos de ter a lei que já vem do tempo dos romanos ou lá o que era? Ninguém sabe falar latim, além do mais… quem nos garante que os romanos não seguiam a lei islâmica e nós estamos a interpretá-los erradamente por não sabermos falar latim? É uma possibilidade.

-Além dessas, haverá outras causas para o terrorismo?

-Como já referi, não podemos falar de terrorismo sem mais. Há outras causas, sim. Portugal, terra de navegadores e colonialistas no passado é hoje terra de grandes pensadores. Informaram-me acerca de um filósofo e jornalista vosso que terá referido o problema da falta de jogos de futebol de salão. É uma questão pertinente. Os jovens saem de casa nos tempos livres, olham, querem jogar futebol e não podem. Naturalmente caem no terrorismo. Outrora caíam no tabaco ou no álcool. Felizmente temos combatido o fumo, pelo que hoje em dia só lhes resta o terrorismo. É a triste realidade. Temos já uma comissão de trabalho que vai organizar torneios de futebol de salão diários para combater estas situações. No final de cada torneio os jovens receberão um diploma de participação. Pode parecer pouco, mas a experiência diz-nos que eles valorizam muito isto, fá-los aumentar a auto-estima. Teremos também aulas de desenvolvimento pessoal, ioga, feng shui e alimentação saudável. Os mais radicais terão à sua disposição zumba e crossfite.

-É todo um programa ambicioso.

-Sim, mas é o único capaz de promover uma sociedade saudável e integradora. Multicultural. Vamos também combater a infiltração da extrema-direita nas claques e na polícia.

-E qual é o objectivo dessa medida?

-Hã…pois, a extrema-direita nas claques é muito má e pode perturbar os torneios de futebol de salão porque apoiam uma equipa em vez da outra. Isso pode configurar racismo.

-Sr. Ministro, uma última mensagem para os nossos leitores.

-Quero dizer que não nos desviarão dos nossos valores.

-E quais são eles, sr. Ministro?

-Pois… ó James (virando-se para o assessor), traga-me aí a lista dos nossos valores… ah, cá está, portanto… valores…são estes, rameiras, vinho… ó James não é esta lista! A outra… exacto, esta… portanto, valores… tolerância e humanismo. É isso.

-Só esses dois?

-Creio que sim. Ó James, temos mais valores? Não? Pois, parece que são mesmo estes.

-Mais alguma coisa, sr. Ministro?

-Não, é isto…o humanismo e isso.

-Muito obrigado pelo seu tempo, sr. Ministro.

-Eu é que agradeço a possibilidade de me darem este esclarecimento e mostrar que não nos desviaremos do rumo do humanismo e da tolerância. Muito obrigado.

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