SEMPRE NA VANGUARDA DA INFORMAÇÃO (EPISÓDIO II)

Por João Vaz
Licenciado em Filosofia

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Entrevista com o camarada Hernando Matos, grande educador da classe operária.

-Boa tarde, dr. Hernando, bem haja pela entrevista. Diga-nos, doutor, o senhor causou recentemente polémica com as suas palavras acerca dos atentados na Europa. Quer clarificar o sentido das mesmas?

-Boa tarde, senti necessidade, eu sempre fui assim, sempre estive com os povos do mundo contra o imperialismo e o capitalismo e… só um momento… (atende o telemóvel), sim, diz, sim… é para comprar, isso, sim, vá, depois falamos. Peço desculpa, era um dos meus gestores de conta, por causa de uns títulos que lhe disse para comprar, mas onde é que íamos?

-No capitalismo…

-Ah, pois, eu sempre lutei contra o capital, sempre, e quando estas coisas acontecem estou com os povos explorados e contra o imperialismo. Bombas na França? Na Suiça? Na Holanda? Contra o imperialismo? Apoio.

-Mas o doutor, se bem me recordo, apoiou a invasão do Afeganistão pela URSS, e esteve com a China quando ela atacou o Vietname e…

-Não queira misturar as coisas! Assim não nos entendemos! Isso não era imperialismo! Isso era uma acção contra o capital, vai daí apoiei.

-Mas o Afeganistão e o Vietname não eram conhecidos pelo capitalismo…

-Isso é o que você pensa. No Afeganistão havia proprietários que chegavam a ter 2 hectares de terras. Se isto não é um latifúndio não sei o que será. O Vietname, bem, o Vietname… sabia que há calçado Nike a ser fabricado lá?

-Mas isso já acontecia em 1979, quando se deu o ataque chinês?

-Não, mas por isso é que eles atacaram. Para impedirem a expansão do capitalismo. Infelizmente saíram de lá e tornaram-se burgueses. Portanto, como vê, foi uma acção preventiva.

-Muito bem, e o Camboja?

-Só lá fui uma vez, eu era mais dado ao Casal Ventoso e…

-Não, não me refiro a esse Camboja, é ao país…

-Ah, pois, o Camboja… o que é que tem, peço desculpa?

-Teve aquele regime terrível, dos khmers.

-Pois, mas não sei, nós nessa altura não sabíamos, não havia internet, não era como hoje… desconheço.

-E os gulagues?

-Também não, esses então ainda menos. Repare, se até gente jovem, como aquela rapariga do comunismo desconhecia essa situação, como é que eu havia de saber? Sou mais velho e tudo, nesse tempo não havia internet.

-E a Hungria? Os húngaros que…

-Ó meu amigo, vamos lá ver, já lhe disse que eu ia mais ao Casal Ventoso, não ia à Pedreira dos Húngaros, nem ao Camboja, nada, está a perceber? É uma questão de coerência.

-Doutor, recuando um pouco, desde quando sentiu essa veia anti-capitalista?

-Desde sempre. No tempo do fascismo estive sempre na luta.

-Quer especificar?

-Sim, uma vez, andava eu no colégio de Santo António…

-Mas esse colégio não era burguês?

-Sim, mas eu andava lá como infiltrado. Para desmontar o sistema fascista-salazarista. Além disso era burguês, não era pequeno burguês. Essa diferença é muito importante.

-Ah, e isso foi?

-Portanto, foi em 1966, tinha eu seis anos.

-E já era antifascista?

-Sim, já tinha uma forte consciência social. Mas como lhe dizia, numa ocasião estava eu no intervalo e passa um pequeno com rebuçados. Pedi-lhe e ele não me deu. Chamei os amigos e tiramos-lhe tudo. Se isto não é um acto revolucionário não sei o que é. Daí em diante obrigámos o puto a trazer-nos rebuçados todos os dias, senão dávamos-lhe porrada.

-Mas isso não era um bocado excessivo?

-Ele era rico. E nem era de Lisboa. O que é que estava cá a fazer? Era de Viseu ou Lamego ou assim. Que ficasse lá na terra a cavar batatas que é o que fazem na província.

-Mas essa não é uma posição racista, doutor?

-Racista porquê? São pretos? Na província não são pretos ou são? Só se fossem é que era racismo.

-Muito bem, portanto… o doutor sempre foi antifascista desde pequeno. Não tinha receio? Da pide, por exemplo?

-Não, nunca tive. Lutar sempre esteve na minha essência. Aliás, vou-lhe contar um episódio: na primeira classe tínhamos lá um bufo da PIDE, o Arlindo, um pequeno burguês, o pai era comerciante. Então o gajo era bufo. Vai daí, um dia enchi-me de coragem e no intervalo disse assim para ele ouvir: pevide, pevide! Ah, ah, ah! Está a perceber? Pevide, pevide! Ah, ah, essa foi boa!

-E que aconteceu a seguir?

-Então… pois, ele deu-me umas pevides…estava a comer de um saquinho e deu-me…pois… foi uma coisa… ainda hoje penso como é que fui capaz, podia ter ido preso. É que ele era bufo.

-Doutor, e o 25 de Abril? Como é que foi?

-Bem, o 25… estava eu no Tugúrio…

-Tugúrio… estava num bairro de lata, portanto…

-Não, o Tugúrio era um bar, ali no Cais do Sodré… eu estava lá com a Milena, a Vanessa. O Fanã, que era um travesti, estávamos lá a passar uns momentos agradáveis e dizem-me que há uma revolução. Vai daí desato a correr.

-Para se juntar aos revoltosos, certamente.

-Não, desato a correr para me refugiar numa embaixada qualquer. Pensei que fosse um golpe fascista e tive de me pôr a salvo. Sabe como é, a revolução precisava de um líder de massas, eu não podia estar preso. Felizmente estive só escondido uma semana e depois pude voltar em paz. Estive a coordenar tudo, sabe como é.

-Foi depois disso que fundou o PCC…

-Não, primeiro fundei o PUM (Partido de unidade marxista). Depois passei para o PEIDA (partido da esquerda independente democrática e alternativa). Mas eles não queriam que eu fosse o chefe e então fui para o PAPO (partido de acção popular operária). Nessa altura tive um convite do PILA (partido independente liberal alternativo) e fui para lá. Mas eles não queriam que fosse o chefe e fundei o PITO (partido independente de trabalhadores e operários). Acho que foi isso.

-Um percurso de coerência, portanto…

-Sim, sempre coerente e sempre pelos trabalhadores.

-E hoje está no PCPP (partido comunista popular português).

-Sim, depois de estar naquele do martelo, não me lembra o nome, fundei este. Mas sempre com coerência.

-Doutor, e o futuro?

-O futuro é o combate contra o fascismo e a burguesia. Sempre na luta e… peço desculpa, o telemóvel… sim, almoço no Ritz, isso. Vou amanhã… a Paris, sim. Classe económica? Não, não, isso é que não… sim… peço desculpa… amanhã vou a Paris e era por causa do bilhete, classe executiva, sabe como é… preciso de espaço para esticar as pernas… as varizes…

-Vai a Paris em serviço, certamente.

-Sim, claro, sempre na luta, sempre contra a burguesia. Vou lá estar uma temporada, aconselhar uns camaradas, sempre na luta!

-Doutor, muito obrigado por esta entrevista.

-Ora essa, eu é que agradeço a possibilidade que me dão de lutar contra o sentimento pequeno burguês, muito obrigado e sempre na luta!

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