Despovoamento do interior: flagelo demográfico

Por Rui Amiguinho
Professor do ensino básico e secundário, Licenciado pré-Bolonha em Informática e Gestão de Empresas e pós-graduado em Ciências da Educação, Presidente da Associação de Iniciativa Cívica Portugueses Primeiro e da Associação Ecológica Motus Veritis, Co-editor do projecto livreiro Contra-Corrente

Raizes

A concentração de investimentos no litoral do país funciona como um sorvedouro de população que aflui às cidades com as inerentes necessidades de habitação, vias de comunicação e transportes. As grandes cidades do litoral estão à beira do colapso urbanístico promovendo a degradação ambiental devido à construção desenfreada em terrenos agrícolas e florestas.

A qualidade de vida ressente-se: ainda que os equipamentos sociais, lúdicos ou os postos de trabalho melhor remunerados se encontrem no litoral, a forte massificação a que este está sujeito cria comunidades sem elos de ligação entre si, algo que ainda existe no interior.

A descaracterização das cidades é ainda mais evidente pela presença (maioritária, em certas zonas) de comunidades alógenas, desenraizadas, e não poucas vezes portadoras de uma matriz cultural e civilizacional com valores contrários, ou mesmo incompatíveis, com os nossos.  A elevada criminalidade que se conhece nas grandes cidades está directamente associada a este desenraizamento e a estas comunidades, algo que é propositadamente escamoteado pelo poder dominante, pela necessidade deste em manter este “exército” de mão-de-obra barata e de baixo poder reivindicativo.

O tema presta-se a demagogias fáceis: “faltam apoios e subsídios ao interior”. Mas a verdade é que muitos apoios e subsídios foram já atribuídos a diversas regiões de baixa densidade populacional (BDP), e os resultados não foram os melhores. Aliás, alguém avalia o impacto dos subsídios que já foram distribuídos para a fixação da população e incentivo da actívidade económica nestes territórios? Não há registo. A verdade é que continuamos com a mesma receita do costume, o “despejar dinheiro” sem critério, que já revelou ter, na maior parte das vezes, exactamente o efeito inverso do desejado.

De que vale oferecer uns quantos milhares de euros a casais que acabam por, mais tarde, abandonar a região, seja por não terem encontrado na vida rural as condições que tinham na cidade (mais comum no caso de autóctones nacionais) ou por não sentirem qualquer tipo de afinidade cultural – e porque não dizê-lo, de sangue – com a terra para onde foram (comum no caso dos imigrantes, sendo esta situação bem mais evidente nos actuais “refugiados”)? Nem o dinheiro é factor único para uma verdadeira integração numa nova comunidade, nem este terá grande utilidade a longo-prazo, pois não constitui, por si só, um factor de sustentabilidade futura. Ao contrário do que alguns nos querem fazer acreditar, o homem não é um ser puramente materialista (há algo mais…!). Além disso, mais importante do que dar a alguém uma esmola, é dar-lhe condições para que possa produzir riqueza. Em segurança. E de preferência localmente, longe do Estado centralizador.

Hoje, há cidades em territórios BDP que encontraram essa tal receita, pelo menos uma das possíveis, para o despovoamento: Vila Real, Covilhã, Évora, Faro – todas elas têm universidades. E isso conduz-nos à pergunta óbvia: “Faz sentido que o Estado abra novos cursos nas grandes cidades, quando o despovoamento ameaça fragmentar o país?“. Será fácil compreender a vantagem de um centro de conhecimento nestes territórios, em comparação com call centers: mais gente, mais conhecimento, oportunidade de mais e melhores empresas.

Michael Porter (1947 – ), reputado economista que se estuda em qualquer universidade da área, escreveu há 20 anos sobre a valorização dos recursos endógenos. Esses recursos permitem desenvolver economia mais sustentada, e com maiores barreiras à entrada para novos players noutras geografias. Para esse objectivo, é necessário que as universidades trabalhem com as empresas em áreas cujas oportunidades poderão aí ser exploradas. Em suma, precisamos de mais universidades em territórios BDP a desenvolver competências endógenas e mais empresas – com capital, experiência, mercado – a valorizar os recursos humanos que saem desses centros de conhecimento. Uns atrairão os outros.

Depois de construir esta base universitária, estaremos então em condições para lutar, de forma progressiva, por:

  • uma auto-suficiência local e regional em matéria energética e alimentar, apostando na produção local e aproveitamento/fertilização dos solos;
  • aproximar os produtores do consumidor final, nomeadamente através de feiras de produtos regionais e na dinamização do comércio local;
  • planificar de forma concertada com recurso à instauração de quotas, nomeadamente em matéria energética (alto nível de aproveitamento de energias, sejam elas renováveis ou não), alimentar (caminhar paulatinamente para a diminuição da importação) e de controlo de fluxos migratórios (recorrendo apenas à imigração no caso de necessidade de quadros técnicos específicos para os quais há carência local).

Há, e sempre haverá, questões demasiado importantes e complexas para uma freguesia ou município, mas que são insignificantes e desinteressantes aos olhos do Estado centralizador, com os seus escritórios na cosmopolita Lisboa. A dinamização do regionalismo/localismo, das forças vivas de cada região, é condição primeira para a reversão deste processo de desertificação e desequilíbrio demográfico.

 

 

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